2 de abril de 2016

Onde estão as Garotas Duelistas?


Apesar do anime estar repleto de fortes protagonistas femininas, e haver cada vez mais e mais mulheres se interessando pela cultura pop nerd, o número de jogadoras de Yu-Gi-Oh! ainda é bem inferior se comparado a quantidade de homens. 
Vamos tentar desvendar o porquê desse fenômeno...

Qualquer um que tenha frequentado eventos de anime, lojas de cards ou torneios já deve ter reparado que a maioria massante dos jogadores de TCG são homens. Em Yu-Gi-Oh! o número de garotas é ínfimo, isto se houver alguma presente. Como sou um garoto, não posso dizer qual exatamente é o motivo por detrás disso, então fui em busca de quem poderia melhor nos esclarecer sobre o assunto: as próprias mulheres.

Procurei entrevistar duelistas e também não-jogadoras, mas envolvidas de alguma forma com o jogo, para ter uma noção ampla do que ocorre. O resultado você confere a seguir:


Coisas de Menino e coisas de Menina

Desde pequenos somos criados nessa cultura de diferenciação dos sexos. Quando crianças os homens são encorajados a ter seus hobbies, como jogar bola e outras brincadeiras, enquanto as mulheres são carregadas de responsabilidade desde muito cedo. Não são raros os casos de famílias onde o filho tem a liberdade de ficar jogando Pokémon, por exemplo, enquanto a irmã tem que ajudar na cozinha e na limpeza da casa. Muitos jogadores, sem nem se dar conta, carregam esse sexismo para a vida adulta e criam um certo "preconceito" com mulheres no ambiente de jogos.

O sexismo é algo presente na sociedade desde muito tempo atrás.


"Eu tenho certeza que quando eu chego numa loja os meninos olham pra mim e pensam: 'Ela ta acompanhando alguém, ela ta acompanhando um desses garotos.' Mas nunca vão pensar: 'ah ela ta aqui pra jogar, assim como todos os meninos que estão aqui.'  "

Hélida Prúcoli (não-duelista, 21 anos)


Devido a essa cultura, já enraizada na cabeça dos mais velhos, há muita falta de incentivo por parte de ambos os pais (ou responsáveis) para que a menina se aventure nesse mundo considerado masculino. Para muitas de nossas entrevistadas o primeiro contato com a cultura nerd e com Yu-Gi-Oh!, veio a partir da influência de homens mais ou menos da mesma faixa etária (irmãos, namorados, amigos).


"Definitivamente meninas não jogam tanto. Porque na infância não são apresentadas ao jogo. Porque tudo que você faz na infância você tende a voltar quando vira adulto."
Elle Oliver (não-duelista, 21 anos)

"Meu primeiro contato foi através de um ex-namorado que jogava."
Maryana Aguilar (duelista, 18 anos)


E mesmo quando há esse contato, o preconceito ainda é vísivel.

"Eu jogava Super Nintendo com meu irmão, era a única coisa que não brigávamos. Mas ainda assim ele disse que eu deveria parar porque era coisa de menino."
Alanna Biatriz (não-duelista, 14 anos)


Podemos observar que realmente não há quase nenhum estímulo para a garota se interessar pelas chamadas "coisas de menino". Portanto, muitas crescem ignorando esse universo e criando em si mesmas um preconceito. Quem nunca ouviu de uma garota que "gastar com cartinha é desperdício"? 
Mas, quando a menina vence esses estereótipos e entra nesse mundo, como é?


Dentro do jogo: Preconceito e Adoração

Tendo sido estabelecido o primeiro contato através de amigos, namorados e etc (ou mesmo da extinta TV Globinho) como elas são recebidas nos locais de jogo? As opiniões foram bem diversas dentre nossas entrevistadas, variando de quem sofre bastante a nenhum preconceito.


"A maioria dos homens acham que, só por ser menina, não vai ter capacidade de jogar bem. Por isso xingam. subestimam (...)"
Maryana Aguilar (duelista, 18 anos)

"Eles tratam sem nenhum problema sabe, sem preconceito ou 'passadas'. As vezes não dão atenção (concentrados no jogo), mas me dão várias cartas pra ajudar meu deck e fiz bons amigos jogando."
Lazy-Senpai (duelista, 19 anos)

"Alguns sempre acham que eu não sei jogar direito por ser mulher, mas a maioria é de boa. E tem aqueles que ficam enchendo o saco 24h por dia como se nunca tivessem visto uma garota que joga. kkk"
Barbara Christina (duelista, 19 anos)


Os depoimentos anteriores nos levam a perceber dois fenômenos distintos: o preconceito e a extrema admiração da mulher que joga. No primeiro fica bem claro o porquê de várias mulheres se desencorajarem, mesmo tendo interesse no jogo. Ninguém gosta de começar algo novo e sofrer agressões verbais, desdém e ser subestimado pelos veteranos. Já o segundo pode não ser claro para muitos jogadores...

Crianças, não sejam como o Brock.

Todo mundo conhece aquele cara estilo Brock, do anime de Pokémon, que não pode ver uma mulher bonita que logo se derrete de amores. Se a menina gosta dessas mesmas coisas "de garoto" que ele tanto ama, aí mesmo que o indivíduo até começa a planejar o casamento.

Pode parecer cômico e divertido esse amor platônico, mas o que muitos deixam escapar é o lado oposto da situação. Muitas garotas se sentem intimidadas e assediadas com esse tipo de atenção exagerada.


"As mulheres que começam a jogar são vistas como deusas (...), o que não deveria ser. Porque quanto mais a gente olha, com um olhar diferente, para essa menina que joga, eu acho que isso distancia as outras. Acho que quando você fica muito espantado pela menina jogar, é como se a maioria não tivesse capacidade para aquilo, é como se ela fosse especial, como se ela tivesse um QI fora do normal."
Hélida Prúcoli (não-duelista, 21 anos)


Os jogadores que se deixam levar por essa atração inicial devido ao mero fato de a garota jogar, estão (sem querer) perpetuando o preconceito de que mulheres não tem a mesma capacidade intelectual de jogo que os homens. Acidentalmente eles afastam as jogadoras e não enxergam isso, porque em suas cabeças eles estão dando o máximo de atenção a menina. Elas não querem essa super atenção, elas só querem jogar como todos nós.


Concluíndo

O problema inicial vem desde lá atrás, na infância, onde já há uma segregação entre meninos e meninas, e o desencorajamento de que um exerça as mesmas atividades que o outro. A partir do momento que nos tornamos conscientes deste traço cultural que trazemos durante nosso crescimento, é de nossa responsabilidade, como jogadores, evitar que o preconceito tome formas agressivas ou idolatrantes. Devemos tratar nossas colegas duelistas da mesma forma que tratamos qualquer jogador. 

Elas por sua vez não podem se deixar desencorajar, devem encarar o universo dos duelos para mostrar a força feminina e impor o respeito que lhes é devido. Provando, também, para suas amigas que possuem preconceitos com o universo de Yu-Gi-Oh! que esse lance de "coisa de menino e coisa de menina" é, na verdade, coisa do passado.

Mulheres e homens unidos por uma mesma paixão: Yu-Gi-Oh!



Agradecimentos

Muito obrigado, primeiramente, a todas as meninas que demonstraram interesse em cooperar com meu trabalho mas que, por motivos de tempo, infelizmente não pudemos terminar as entrevistas.

Meus mais sinceros agradecimentos a todas as participantes, especialmente a:

Hélida Prúcoli
Pela argumentação sólida e rica.
Sem a qual esse texto não teria sido possível

Alanna Biatriz
Melhor amiga. Sempre me dá a
maior força nos meus textos

Barbara Christina
A mais solicita dentre todas
as duelistas entrevistadas

Comentários
2 Comentários

2 Comentários:

Mister disse:
2 de abril de 2016 21:25

Só venci 1 mulher até hoje e ela tava começando. Perdi pra algumas mulheres, dessas a maioria eram muito melhores do que eu. Sem bajulação o(a) melhor duelista no ygopro que eu vi foi uma mulher, ela tinha feito um deck que misturava 3 diferentes, deu uma surra linda no meu satella, algo que só voltei a presenciar com o surgimento dos Kozmos.

Ronaldo Silva disse:
2 de abril de 2016 21:25

Ótimo post cara. Esse "Sexismo Cultural" é o maior vilão dessa história.